Asas

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Eu preciso de asas. Um par qualquer que me leve a visitar novos lugares. Sentindo o vento, o sol, o barulho das folhas de outono do parque. Asas que me apresentem novos céus, diferentes formatos de nuvens. Que vez ou outra me carreguem por tempestades ou mesmo àquelas chuvinhas do início da primavera, que dão brilho e altivez para a mais pequenininha das flores.
Eu preciso de asas que me escondam quando eu tiver medo, mas que também me deem forças para encarar o voo rasante. Eu preciso de asas para bisbilhotar por entre flores. Planar por entre copas, flutuar no azul, despreocupado. Sentir o cheirinho do carrinho de pipoca, do café torrado, do bolo de fubá da vizinha.
Preciso de asas que transponham montanhas, cruzem por sobre rios, voem oceanos e se aconcheguem em um ninho qualquer. Preciso voar com o vento, contra ele, por ele. Voar. Saber, ou não, por onde seguir. Visitar o verde e o vermelho. O sabor doce e, também, o amargo dos frutos.
Preciso delas e não vivo sem elas. Minhas asas, que me levaram a tantos lugares. Que me fizeram conhecer tantas outras aves: maritacas, pintassilgos, andorinhas e beija-flores. Não faltaram gaviões e, por vezes, sabiás-laranjeira. O mundo é muito mais colorido segundo seus pares de asas.
E eu preciso delas. Sem amarras, sem podas, sem gaiolas. Passarinho, eu. Livre. Batendo asas. E feliz.

Nem lá

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Fazia sol. E os passarinhos mal se aguentavam pousados nos fios. Tudo era calor e, naquela manhã, não caíra o orvalho. De todo o jardim, as petúnias foram as primeiras a pedir arrego. E o louva-deus, coitado, não se via mais em preces para que houvesse alguma mudança.
Fazia muito sol, e daqueles que qualquer passante diria ser “de rachar mamona”. Os sabiás que aqui gorjeavam, mudaram de ideia e foram tentar outras paragens. As margaridinhas que reinavam absolutas por toda a extensão do quintal, disputavam fervorosamente um cantinho de sombra da sibipiruna. Mas era tudo tão em vão. O calor só aumentava.
Fazia um sol indecente, digno de políticas públicas resolutas. Mas o capim berrava por água, ao invés da vaquinha, que há tempos pastava por ali. O verde se tornou cinza. E, de alguns rabiscos no muro, sobraram apenas o giz branco, já que todos as cores perderam espaço para a poeira vermelha. Não havia mais amarelinha na calçada, muito menos esconde-esconde por cima das árvores. A mãe já não deixava assim, tão fácil, que brincadeiras da rua fossem executadas. O salve-bandeira era agora salve-se quem puder.
Fazia um sol danado. Mas a mulher do tempo na tevê anunciou uma chuvazinha para o fim da tarde. Eba! Só que veio tempestade. Alagou tudo. Estragou tudo. Arrancou os fios que os passarinhos costumavam pousar. Afogou as petúnias e as margaridinhas. Jogou longe a sibipiruna. O capim virou alga-marinha. No muro, tudo foi lavado, menos a alma da mãe e das crianças, que continuaram escondidas dentro de casa. Mesmo com toda a frescura, ainda era perigoso sair de casa. Outros motivos, segundo a mãe.
O sol voltou no dia seguinte. Mas tudo estava revirado e diferente. Fazia um sol ardido e maledicente. Mas outra chuvinha daquelas ameaçava tomar o reino da tarde.
A prefeitura de Pasárgada anunciara estado de calamidade pública.

* Este texto deveria ter sido escrito no dia 15, sob a alcunha do Blog Action Day, uma iniciativa em que blogueiros do mundo inteiro deveriam postar alguma coisa sobre as mudanças climáticas na terra. Desculpem o atraso, mas é que caiu uma chuvinha…

O selo, por Fellipe Fernandes

vermeer - love letter

Esqueça e sofra, não venha mais.
Amanhã será um dia igual a ontem e nós dois já não podemos mudar isso, creio que por falta de esforço. Ficamos preguiçosos demais para desfrutar essa agonia à que nos propusemos.
Por favor, também não responda, não quero mais seus afagos. O carinho me desestabiliza. É melhor que você me trate sempre com a frieza dos tempos em que não nos conhecíamos. Havia, pois, calor, cores – ainda que eu pensasse neles apenas quando desejava. E o desejo eu prendia numa página qualquer, num filme que encontrasse no televisor, ou na forma do bolo da tia Selma, que vem toda quinta, sem falhar.
Entretanto, você não é o bolo de minha tia. Você é essa massa que eu mesmo decidi bater numa tarde dessas de novembro, oitenta e nove meses atrás, depois de ter pré-aquecido o forno mais tempo que o normal, e que nunca cresceu. Nossos planos, se é que fizemos algum com vontade suficiente para encaixá-los em nossa rotina, embatumaram.
Fique tranquilo, a culpa não é só sua. Eu não quis lhe apresentar minha irmã, meus amigos mal sabiam seu nome e no trabalho eu permaneci solteiro. Talvez me conviesse, não sei. A curiosidade alheia nunca me incitou a lhe amar publicamente e eu lhe transformei em meu espectro privado, cujas únicas noites assombradas eu me deixei viver, porque precisava sentir esse medo.
 Mas como os trens-fantasmas que um dia simplesmente perdem a graça, nos pegamos, certa hora de dois outonos passados, num passeio qualquer abrindo uma lesão profunda de uma música soada por um qualquer na porta de um restaurante sem importância. Receio que aquele sim era o momento correto para nos despedirmos, mas não o fizemos. Paciência.
 Por isso, escrevo-lhe agora, antes que desafinemos nosso silêncio, porque sim, é necessário: obrigado por ter me amado como eu também lhe amei.
Se, todavia, ao ler esta carta, você por um segundo sentir que estamos perdendo algo, desvie-se, pois não estamos. Temos ainda o contrário adiante, num caminho sem ramos daquele egoísmo da persistência ao qual sempre queremos nos entregar.
E se você, por qualquer razão, julgar que foi mais difícil para você ler estas palavras do que foi para mim escrevê-las, não se engane: creio que também vou lhe esquecer um dia, mas não antes sem ter vivido a dose que a mim cabe de nosso sofrimento.

* texto publicado, excepcionalmente, neste blog devido algumas reestruturações em As canções de F.
** mesma brincadeira do meme aqui embaixo! ^^

Bye bye honey…

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Quando você disse que não era amor, eu sorri. Já sabia que não dava mais, que aquilo tudo era exagero. O choro de antes era bobo, sem razão, desbaseado. Então você se virou para o lado, dormiu e eu fiquei sem entender o dividir da mesma cama, dos travesseiros e dos sonhos. Já não sabia qual era  a cor do seu sorriso. Escondia-se atrás de sobrancelhas arqueadas e das rugas de expressão duvidosa que apareciam por entre as suas sardas. Você disse que não era amor, mas continuamos. Até que de manhã a ficha caíra e o até logo simples se transformou em amizade.
Não. Não quero mais isso. Fique com seu sorriso bobo que me fazia feliz. Deixe que eu levo o carinho que te dava alento. Te fará falta vez ou outra, mas agora a espera pelo telefonema não faz mais sentido. Aquela música que era só nossa saiu de moda e o metrô condicionara alguém cantando uma nova canção. O amor que vivia de modismo ficou cafona e bobo. E não há mais razão para isso tudo.
Imagino sua cara agora ao ler esta carta. Aposto que do azul profundo em que eu me perdia, seus olhos passaram àquele cinza petrificante. E aquela cara que anteontem dizia “Eu te amo” sem ter vergonha de errar no sotaque só se lembraria de uma ou outra expressão vulgar de momentos mais íntimos. O “I love you” que eu dizia era, sim, sincero. E eu me esforçava em conjugar certinho o seu verbo. Mas…
Agora acabou tudo.
Esfriaram-se os edredons velhos do teu quarto mesmo com aquele aquecedor, também velho, ligado. As fotografias de tua parede que nos observavam entre sussurros, todas se calaram. E mesmo você dizendo que meu cheiro ainda está lá, eu não posso fazer mais nada. Não posso negar, também, que vou sentir estranho não mais sentir aquela mola do teu cochão que me incomodara há algum tempo. Você era mais maciez e eu não me importava com nada.
Era.
E é por isso que não dá mais. Sei que vou chorar agora no comecinho, mas tudo passa.
Nosso amor passou.
Bye bye honey.

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Ficou curioso para quem é o dramático adeus, não é? Hehehe
Na verdade é uma brincadeira, um meme que veio passando até chegar por entre estas linhas. Visto pelas lentes de Fran Rodrigues, ficou muito melhor. Foi ela quem me passou, depois de receber da Aninha que ganhou a tarefa do Pirei que… enfim…

A proposta é que os indicados façam um texto como se rompessem com alguém. A ideia foi inspirada na exposição Cuide de Você, da francesa Sophie Calle, que convidou 104 mulheres para interpretarem um email de seu ex-namorado que gostaria de romper o relacionamento de ambos.

As regras do meme:

1 – Escrever uma carta como se você estivesse rompendo com seu (sua) namorado (a);

2 – Escrever estas regras e uma breve explicação do que é o meme (como essa aí de cima);

3 – Indicar cinco pessoas.

Vou ter de repetir algumas indicações, mas vale botar umas pessoinhas que não escrevem há muito tempo para trabalhar. Diga adeus então: Dani (que levou indicação da Fran, mas ganha minha também porque o texto dela é lindo), Lídia (mesmo toda romanceada), Iêda (pra sair da preguiça de escrever), Rodrigo (que nem sei se sabe que o meu blog existe, mas vai ficar sabendo agora – e escreve de uma belezura tb! hehe) e Fellipe (que não faço a mínima de como vai voltar a postar lá, mas que fica a tentativa! Rá!).

Sobre histórias (até mesmo a minha)

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Qual a melhor maneira de se contar uma história? Aprender com ela. Trazer a novidade. Criar. Recriar. Inovar na mesmice e trazer pontos de vista. Imagine uma pracinha sem graça de uma cidadezinha do interior e compare com o centro histórico de uma grande metrópole. Qual o grande ponto atrativo de ambas? Eu diria suas pessoas. A vida que se insere nestes ambientes. Alguém poderia dizer que um interior drummondiano não teria graça nenhuma se fossem apenas casas, bananeiras e laranjeiras. Mas Drummond estava ali e, de repente, esse arzinho bucólico se tornou interessante.
O trânsito por entre esses lugares traz à vida a alma de quem conta uma história. Eu gosto de picolezeiros, senhorinhas que se balançam nas cadeiras de alpendre, limpadores de chaminés, mesmo os mais raros. Por que não? Eles existem! Estão por aí cheios de histórias. Aliás, o gosto de contar como é viver em uma casa com chaminé, ou o ritmo do balanço em frente o alpendre enquanto se esguelam ao sol os donos dos carrinhos refrescantes. Chupar um de groselha. Lembrar do gostinho de creme de ovos diante do vai-vém dos passantes na calçada. Descobrir que eles estão mesmo ali em Goiânia ou em Londres ou, mesmo, numa cidadezinha qualquer que é viva por causa de quem vive nela.
Diante das tecnologias, o papel de um contador de histórias é mostrar aquilo que estava ali e que ninguém reparou. Ou que reparou mas nem deu atenção. É contar casos de beira de estrada. Apurar a fofoca da vizinha e passar adiante. Sentar em um banco de faculdade diante de quatro anos para, ao final, encher o peito de orgulho e dizer que você é um fofoqueiro com muito orgulho. É essa nossa profissão e quem diz o contrário pode ser um baita hipócrita.
Mas vejam só que sem graça seria uma vida sem histórias. Faltaria assunto para as mesinhas de bar e as rodadas de pinga entre uma ou outra expressão da novela. Informação de primeira é aquela que vem sem querer e prende seus olhos ainda sem querer.
O papel do jornalista é humanizar a informação. É falar de pecuária em caderno de economia e, além do preço da arroba do boi, mostrar que ele é bem tratado, que tem vida de rei do gado e ganha mais do que o salário mínimo de quem está lendo sua matéria. É falar sem vergonha de se envolver com sua história. Se a internet já traz notícias ao passo que acontecem, o do jornalista é mostrar os desdobramentos disso. Não apenas no jornalismo de veia investigativa ou interpretativa. Também não como opinião infundada ou pontos de vistas pessoais. É tratar sua pauta com o aval de um fulano, estilo de ciclano e a diferença de uma pitada de vida de beltrano.
É saber temperar. Não disseram que jornalista é como cozinheiro? Na universidade ensinaram a temperar bem, observando que aquele conhecimento prévio faz sim a diferença. É trazer o temperinho de casa, do seu estilo próprio e a partir das receitas básicas construir seu estilo.
E nessa mistureba mergulhar num mundo inteiro de possibilidades. Como é a vida daquela tia que sai todas as sextas-feiras da igreja com a sombrinha colorida debaixo do braço e cruza a rua principal para sabe-se lá onde? É curiosidade. Como ela vive? O quê ela faz? Quem ajudou ela a escolher essa sombrinha? Por que ela leva essa sombrinha todas as sextas se nem está ameaçando chover? Opa… das perguntas bestas podem surgir uma pauta. Além dela, outras senhorinhas carregam sombrinhas e outros bagulhos. Uma passa até com uma garrafinha pet de água. Diz que é benta depois da novena. Foi levar pra amiga, aquela da sombrinha que não foi essa sexta porque pegou uma virose que acham que é a tal gripe do porco. Bom uso para a tal da água. Fé. Ciência. Pauta.
E lá se vão as ideosas criações de filhos da pauta. Com mães mudadas de nome assim como letras em palavras do mal. Xingamentos e aventuras. Trabalhar com prostitutas, pastores, caloteiros. Muita gente de bem. Descobrir nomes engraçados. Rir a bessa. Aliás, chorar muito, mas rir mais ainda. Ser jornalista é um deleite. Sentir-se que nem pinto no lixo diante de uma boa pauta. Revirar bobagem. Não ter vergonha do ridículo e de se descobrir ridículo (e feliz!) em seus atos bestas quando se enxerga no seu personagem.
Mas ser jornalista também é ter que refazer pensamentos diariamente. É se reinventar. É dizer tudo o que já foi dito e, de repente, ser surpeendido como uma ideia nova. Assim como o bom leitor que tem de estar aberto à nova informação, o jornalista tem de estar aberto ao diferente. Aliás, antes de jornalista, somos leitores. E se você está lendo isso até agora, parabéns, já tem o potencial para mudar sua opinião (ou discordar da minha), ou pelo menos conhecer um pouquinho de uma coisa que talvez você não conhecia: meu pensamento. Bem-vindo ao meu mundo!

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Eu? Quem?

Renan Rigo. Jornalista. Acostumado ao ilógico e ao irreal (muitas vezes surreal), gosta mesmo é de falar das coisas bestas e engraçadas que existem. Falar sério? Hã... de vez em quando também é bom! Mas só de vez em quando!

Rapidinhas! ;)

Human Calendar!

De onde mesmo?