Samba diferente

Um pouco para a direita. Não, não! Para a esquerda, mais um pouquinho, não, não, não!
Crec!
Ai! Putaquepariu!
E maledicente condenava o travesseiro, que foi substituído uma, duas, três vezes. E nada. Continuava com a maldita dor no pescoço de um torcicolo que parece ter encontrado a morada ideal, seu lar-doce-lar eterno.
Restava apenas se entupir de anti-inflamatório e remédios para dor muscular. Tomava torsilax como se não houvesse amanhã. E em sua memória musical, que sempre recorda as mais clássicas bizarrices do cancioneiro popular, começou a relembrar o Molejão.
Pode quebrar o pescocinho pro lado, vai, vai, vai, vai, vai…

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Perdas e remédios

Nos últimos dias foram três sustos: o fatídico, o repentino e o programado.
A morte do saudoso pai do ex-melhor amigo.
A corrida às pressas para conter a dor insuportável de um torcicolo sem precedentes.
A retirada da vesícula.
De repente, doenças, mortes e tratamentos de saúde se tornaram coisas tão comuns.
Melhor mesmo era quando tudo não passava de uma ida ao pediatra.
Ou chá de boldo.

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Balança


Refletiu demoradamente sobre os últimos acontecimentos e chegou a uma conclusão: todas as vezes, TODAS, eram de sua boca as palavras de término. Inventava mil motivos, pregava dúvidas e inseguranças. Mas com qual finalidade?

Não se amarrava nunca por mais de certo tempo. E chegou a hora de partir, segundo seu cronograma ilusório. Não havia, pois, um caminho diferente a seguir? Precisava sempre machucar alguém ao forjar esse mal-estar, essa implicância com certas atitudes. Se a balança comandava sua cabeça e sempre pesava os prós e os ante-prós, por que os sorrisos, os afagos e os tempos bem aproveitados no ócio compartilhado se esvaíam na sua mente?

Passou a querer muito voltar na sua psicóloga. Mas já sabia muito bem o que ela iria lhe falar: Você precisa decidir o que quer da vida. E isso vale, também, diante do desequilíbrio dos seus pratos, libriano.

Visão

Por que fitavam tão copiosamente aqueles olhos? Por quê? Se da profundidade e do brilho que exprimiam, por que seria essa a tragédia de seu presente? Eram olhos que traziam insegurança longe dos seus, mas que bradavam de ternura e alegria ao se juntarem aos que lhe correspondiam.

E se correspondiam, por que se fecharam? Qual a razão de não piscarem? De mesmo que olhassem para o lado, de rabo de olho que seja, por qual motivo não voltaram carinhosamente a contemplar os cílios, as pálpebras ou mesmo as olheiras que sustentavam seu sono logo pela manhã?

Eram olhares, agora de interrogação. E da última vez que esteve com eles estavam atrás de óculos escuros.

Pareciam tristes, afinal. Mas, dessa vez, não os viu.

Separação

Gastou alguns de seus ociosos minutos a contemplar os momentos vividos. Nas fotos jaziam lembranças de um passado muito feliz que o fez refletir. E chorar.

Lembrou por alguns instantes que os sorrisos eram verdadeiros, que havia ali o sentimento que cogitou perder algum dia. Não, não o havia perdido. Estava apenas preso embaixo de alguns escombros que entulhou no canto de sua memória. Aliás, tentou por tantas vezes se livrar do passado que este, mais recente, era agora o abrigo para aquilo que sonhava ser seu bem querer. E não cansava de pensar naquilo.

Lembrou de como foi engraçada e mesmo ocasional essa aproximação. Por que da separação? O “não sei” era a resposta mais insalubre que amargava no gosto de suas lágrimas. E mesmo assim continuava sem respostas.

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