Arquivo do autor:Renan Rigo

Tons de cinza

Water Texture
O céu, como sempre, amanhecera azul. No entanto, com o pique do meio-dia a escuridão instalou-se como a bruma leve que chega momentânea e toma conta. Dos olhares, furtivos, fez-se a trava por sobre os olhos para o não enxergar de suas cores. Era, em total, cinza. E pétrea. E pálida – sua feição.

Esvaneceu-se como suas palavras no momento em que nada dissera. Estaria ocupado, entre tantos trabalhos, ou apenas não acreditava ser necessário perder tempo em dar uma resposta a indagações tolas e sem propósito. Aliás, odiava como quando insistia no debate e nada obtivera em retorno. A indiferença é mais ferina que a bofetada na face.

Talvez fosse melhor se fosse ríspido. Se questionasse, se esperneasse, se gritasse e se xingasse. Preferia ouvir palavrões desencontrados, ver-lhe perder a cabeça, e esvaziar-se, finalmente, em desabafo. Mas não. Ainda assim o silêncio era a única resposta que vinha de tempo em tempo após uma mera menção de interesse. Assim como a tarde que se desfez em chuva. E esfriou.

Fisioterapia

Maca, costas e gel. Fios.
Eletricidade.
Não quis o travesseiro.
Pouco a pouco aumentavam-se os pulsos. E relaxava.
Sentia a contração do trapézio e aquela dorzinha insistente no pé do pescoço. Deixava-o ali a observar os esforços das senhorinhas, em reabilitação, ou as tiradas que chamavam seu terapeuta de Felipe Dylon – antes era Michel Teló.
Riu.
Pediu mais intensidade. Vibrava e relaxava-o.
Mas eram poucos os minutos. E em pouco tempo tinha a certeza que a dor voltaria.
Pelo menos ele também voltaria. Precisa ainda de muito tratamento. De choque.

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A visita

 

Fechou a porta e deu duas voltas na chave.
Não precisaria trancar a fechadura superior. Em questão de pouco tempo já estaria de volta com uma sacolinha chiadeira do supermercado e suas compras rápidas: cerveja, coca e um pacote de salgadinhos artificiais. Seria o bastante, não fosse o fato da cerveja ainda precisar de frio.
Havia gelo para a coca.
Não quis. Sentou-se no chão, dispensou também o petisco improvisado e começou a tagarelar sobre projetos, óleos e cremes para cabelo. Rebateu de cá com sites, estrangeiros, video-games…
– Estou tomando remédio pro estômago. Refluxo e um monte de outras coisas.
Lembrou da cerveja que estava gelando e torceu para que não congelasse.
Decidiram não falar de doenças. Citaram relacionamentos, gerações e ansiedade. E pelo menos um deles descobriu que alguma coisa incomodava mais do que esperava. Riram e conversaram ainda mais.
Desejava que a visita improvisada durasse mais momentos.
Sentia falta do seu amigo. Dos seus amigos.
Despediram-se. E foi beber cinco, das seis latinhas que estavam por congelar.
Sobrou apenas. Na geladeira, uma latinha.


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Samba diferente

Um pouco para a direita. Não, não! Para a esquerda, mais um pouquinho, não, não, não!
Crec!
Ai! Putaquepariu!
E maledicente condenava o travesseiro, que foi substituído uma, duas, três vezes. E nada. Continuava com a maldita dor no pescoço de um torcicolo que parece ter encontrado a morada ideal, seu lar-doce-lar eterno.
Restava apenas se entupir de anti-inflamatório e remédios para dor muscular. Tomava torsilax como se não houvesse amanhã. E em sua memória musical, que sempre recorda as mais clássicas bizarrices do cancioneiro popular, começou a relembrar o Molejão.
Pode quebrar o pescocinho pro lado, vai, vai, vai, vai, vai…

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Perdas e remédios

Nos últimos dias foram três sustos: o fatídico, o repentino e o programado.
A morte do saudoso pai do ex-melhor amigo.
A corrida às pressas para conter a dor insuportável de um torcicolo sem precedentes.
A retirada da vesícula.
De repente, doenças, mortes e tratamentos de saúde se tornaram coisas tão comuns.
Melhor mesmo era quando tudo não passava de uma ida ao pediatra.
Ou chá de boldo.

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