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Tons de cinza

Water Texture
O céu, como sempre, amanhecera azul. No entanto, com o pique do meio-dia a escuridão instalou-se como a bruma leve que chega momentânea e toma conta. Dos olhares, furtivos, fez-se a trava por sobre os olhos para o não enxergar de suas cores. Era, em total, cinza. E pétrea. E pálida – sua feição.

Esvaneceu-se como suas palavras no momento em que nada dissera. Estaria ocupado, entre tantos trabalhos, ou apenas não acreditava ser necessário perder tempo em dar uma resposta a indagações tolas e sem propósito. Aliás, odiava como quando insistia no debate e nada obtivera em retorno. A indiferença é mais ferina que a bofetada na face.

Talvez fosse melhor se fosse ríspido. Se questionasse, se esperneasse, se gritasse e se xingasse. Preferia ouvir palavrões desencontrados, ver-lhe perder a cabeça, e esvaziar-se, finalmente, em desabafo. Mas não. Ainda assim o silêncio era a única resposta que vinha de tempo em tempo após uma mera menção de interesse. Assim como a tarde que se desfez em chuva. E esfriou.

Balança


Refletiu demoradamente sobre os últimos acontecimentos e chegou a uma conclusão: todas as vezes, TODAS, eram de sua boca as palavras de término. Inventava mil motivos, pregava dúvidas e inseguranças. Mas com qual finalidade?

Não se amarrava nunca por mais de certo tempo. E chegou a hora de partir, segundo seu cronograma ilusório. Não havia, pois, um caminho diferente a seguir? Precisava sempre machucar alguém ao forjar esse mal-estar, essa implicância com certas atitudes. Se a balança comandava sua cabeça e sempre pesava os prós e os ante-prós, por que os sorrisos, os afagos e os tempos bem aproveitados no ócio compartilhado se esvaíam na sua mente?

Passou a querer muito voltar na sua psicóloga. Mas já sabia muito bem o que ela iria lhe falar: Você precisa decidir o que quer da vida. E isso vale, também, diante do desequilíbrio dos seus pratos, libriano.

Visão

Por que fitavam tão copiosamente aqueles olhos? Por quê? Se da profundidade e do brilho que exprimiam, por que seria essa a tragédia de seu presente? Eram olhos que traziam insegurança longe dos seus, mas que bradavam de ternura e alegria ao se juntarem aos que lhe correspondiam.

E se correspondiam, por que se fecharam? Qual a razão de não piscarem? De mesmo que olhassem para o lado, de rabo de olho que seja, por qual motivo não voltaram carinhosamente a contemplar os cílios, as pálpebras ou mesmo as olheiras que sustentavam seu sono logo pela manhã?

Eram olhares, agora de interrogação. E da última vez que esteve com eles estavam atrás de óculos escuros.

Pareciam tristes, afinal. Mas, dessa vez, não os viu.

A volta

Os besourinhos de fogo eram sua praga. Ceifavam sua energia, consumiam seu calor. Não que fossem de todo mal para seus domínios. Zumbiam com toda harmonia de uma serenata.

Eram, também, portadores de novas sementes, mas ainda assim não eram esperados. Traziam ventos de mudança no farfalhar de suas asas pequeninas. E na cadência simples, chacoalhavam parte de seu coração.

Que fariam agora se aportassem novamente neste terreno tão peculiar? Se viessem a plantar poderiam fazer brotar aquilo de bonito que já nascera por ali?

Queira bem que não venham a ser como pragas. O que colocaram uma vez ,ali, não vingou de primeira. Poderia, simplesmente, cuidar de seu jardim e o resto que, por seu trabalho, se virassem. Por ora, pelo menos, o terreno parece estar preparado.

Mais feliz

Ainda sente um leve aperto no coração. Briga com ele, o chama de burro, imbecil. Mas ele é teimoso e prefere sofrer a esquecer por simplesmente esquecer. Não bastassem os minutos que fica ali apreensivo à espera de um oi, alimenta uma esperança descabida de que dessa vez vai ser diferente.
Quando recebeu uma mensagem sem remetente conhecido, dizendo: “preciso falar com você”, logo ficou todo ouriçado. Tirou o pó que se acumulara dentro do átrio. Organizou novamente seus ventrículos e se propôs a botar ordem por lá novamente. Acreditou piamente que dessa vez iriam se falar, se entender e se amar. Mas não. O remetente, veio a saber logo depois, cometeu apenas um leviano engano. Não era com ele. E se esmoreceu, novamente.
Tentou bombear novamente sentimentos. No entanto, o sangue vinha frio, desnecessário, como se não fosse mais interessante bater puro e simplesmente. Restava-lhe viver? É. Tinha que se manter pulsante em meio à dor. Mas a cada movimento, bombeava tristeza. O tum-tum no vazio que pairava oco no meio de seu peito só se alternava com o lampejo da janela do MSN, que indicava que seu algoz havia entrado. Nada mais.
Queria ouvir o barulhinho de que lhe dirigissem também uma mensagem. Tudo que queria era um oi mais feliz.