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Tons de cinza

Water Texture
O céu, como sempre, amanhecera azul. No entanto, com o pique do meio-dia a escuridão instalou-se como a bruma leve que chega momentânea e toma conta. Dos olhares, furtivos, fez-se a trava por sobre os olhos para o não enxergar de suas cores. Era, em total, cinza. E pétrea. E pálida – sua feição.

Esvaneceu-se como suas palavras no momento em que nada dissera. Estaria ocupado, entre tantos trabalhos, ou apenas não acreditava ser necessário perder tempo em dar uma resposta a indagações tolas e sem propósito. Aliás, odiava como quando insistia no debate e nada obtivera em retorno. A indiferença é mais ferina que a bofetada na face.

Talvez fosse melhor se fosse ríspido. Se questionasse, se esperneasse, se gritasse e se xingasse. Preferia ouvir palavrões desencontrados, ver-lhe perder a cabeça, e esvaziar-se, finalmente, em desabafo. Mas não. Ainda assim o silêncio era a única resposta que vinha de tempo em tempo após uma mera menção de interesse. Assim como a tarde que se desfez em chuva. E esfriou.

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Maternidade

Serve-se fartamente de todo o carinho que pode obter. É de fato aquilo que se propõe. Não se faz de rogada quando o assunto é a defesa dos seus. Investe com ferocidade, como se defendesse instintivamente. Mas é também amor.
Cuida para que todos se sintam à vontade. Às vezes, tira de seu próprio prato caso um dos seus mencione tal preferência. E se tem que sofrer, chorar, implorar por algo que precisem, é a primeira a tomar a iniciativa.
Gosta de Roberto Carlos e chora por bobagem, dizem. Mas são bobagens das que importam: um filho distante, uma contrariedade, uma alegria em um momento inesperado. Chora de alegria e de dor, mas é o choro sincero, a lágrima bem-vinda, o sorriso cativante.
Quer porque quer um sapatinho vermelho. Ganha apenas beges, azuis e tons de marfim. Não trilha tijolos amarelos, mas pisa com firmeza verdes ardósias todos os dias. São nelas que galga suas alegrias.
E não é de ver que já é avó! Aliás, avó não, nona! Daquelas que paparicam e repetem o ciclo de mimos e delicadezas que as diferem e as fazem tão especiais. Briga, puxa a orelha, às vezes se decepciona, mas vive. Vive muito!
Rosa e loira. Cores e texturas presentes desde quando a conheço. Forte, em todos os momentos que precisa ser. Mãe, sempre. A minha que eu amo demais. Feliz dia!
*texto feito pra minha mãe no dia das mães – 09/05/2010. ^^

Em algum cantinho escuro

Quando uma ideia se acendeu, as luzes se apagaram. O mundo ficou imerso na escuridão e os comentários se sucederam a alertas apocalípticos. Era preciso voltar ao limbo da criação, daquele onde havia apenas trevas, para que a humanidade repensasse o seu começo. A “Hora do Planeta” trouxe uma luz ao caos do aquecimento global por meio do breu. A ideia simples de parar o consumo de energia elétrica exorbitante por reles 60 minutos tomou proporções gigantescas mundo afora, mas ainda pequenas se comparadas ao tamanho do problema.
Não foi tão grande assim porque talvez você sequer tenha notado que alguns prédios apagaram suas luzes por aí, que monumentos históricos tiveram sua iluminação cortada e que mesmo empresas famosas pararam por alguns instantes sua produção. Havia sim, pessoas engajadas na causa, mas muitos viram apenas comentários em algum noticiário que mencionavam algo tão distante da rotina diária de quem assiste o Jornal Nacional, vê a novela e vai para a cama por ter de acordar no outro dia cedo, mesmo o domingo, para ir à igreja pedir por uma vida melhor.
Só que pouca gente sabe é que esse mundo melhor começa nessas iniciativas. A ideia surgida na Austrália de apagar as luzes e diminuir o consumo, além de movimento de protesto simbólico é um ato que reforça a sua parte nessa história toda. E se até a Cidade Luz, Paris, desligou por algum tempo aquilo que lhe dá mais fama, porque pessoas simples como eu ou você não poderiam tirar a TV da tomada por um tempinho, por exemplo?
Ah, mas já passou, foi no dia 27 de março. Pois então, passou. E agora? Voltemos a consumir mundos e fundos de energia, extrapolar nossa cota de lixo, ligar todas as luzes da casa, afinal como dizem por aí “tô pagando!”, né? Né, não! A conta disso tudo a gente apenas vê em pequenas cobranças que a Terra parcela sofrendo em terremotos mal explicados, tempestades que surgem do nada e uma mudança no meio ambiente que é difícil de entender. Difícil mesmo?
É só pensar. Quando você fica doente com um resfriado, por exemplo. Geralmente são corpos estranhos de algum tipo de vírus atacando seu corpo, sugando sua energia, acabando com você. E a tendência é seu corpo se defender, procurar eliminar essa doença. Em uma analogia tosca, se atacamos nosso planeta, sugamos sua energia e acabamos com ele, vamos esperar sermos diagnosticados como vírus a espera de uma possível eliminação?
Felizes são os organismos que, mesmo nos cantinhos escuros de nosso corpo, ajudam-no a funcionar bem.

*A ser publicado na Gazeta Metropolitana, de Hidrolândia.

A face bipolar da humanidade

O noticiário foi tomado pelo caos. A terra estremecera e ao pó retornaram milhares. Não bastava o dito que pregava o fim ao qual todo ser humano está destinado, um abalo como o do Haiti levou ao fim histórias de muitas pessoas que não entendiam sequer como poderia ter acontecido aquilo. E ao pó, do qual muitos jamais irão retornar, também foram construções, projetos e sonhos. Era tão claro que não havia saída fácil que o mundo inclinou a cabeça e pediu pelo Haiti. Choremos pelo Haiti, rezemos pelo Haiti. Mas onde estava o Haiti antes de toda a tragédia se assolar pelo país?
O Haiti estava na pobreza, estava na guerra. Clamou sempre por socorro desde quando ainda era mera colônia da França. Foi explorado, massacrado. Choraram pelo Haiti quando suas crianças passavam fome? Rezaram pelo Haiti quando a violência tomava o país numa guerra civil sem precedentes? Alguns muito poucos o fizeram.
O noticiário também foi tomado pelo caos quando as encostas desceram sobre nós. E a terra estremeceu entre a chuva e a lama. No próprio Brasil onde choram pelo Haiti, choraram por Angra e por São Luís do Paraitinga. As pessoas morreram soterradas. Chafurdaram na lama os corpos, o patrimônio e o “feliz ano novo”. E rezaram por Angra, choraram por São Luís. Mas onde estavam aqueles miseráveis que constroem seus barracos nas encostas dos morros antes de vir tudo por água abaixo? Se até os hotéis luxuosos de Angra caíram por terra, o que dirá dos desabrigados que não têm sequer um teto quando qualquer chuvarada cai por sobre eles?
Os barracos estavam lá, na imundície da falta de saneamento. O morro estava lá, também, sufocado por ferro e madeira do qual retiraram sua sustentação. Dos pobres havia o choro do desespero do dia-a-dia. Das preces, um mundo sem o aquecimento global e a destruição dos ecossistemas. E poucas atitudes eram feitas.
Mas das tragédias todos se compadecem. Oferecem ajuda, fazem campanha. Válido, mas não suficiente. Somos assim nos extremos. Só que logo aqui, em Goiás, por exemplo, vê-se um recorde nos assassinatos, só nesse início do mês de janeiro, com chacinas tão monstruosas quanto as tragédias da humanidade.
Matamos e choramos por mortos. Dopamo-nos e nos preocupamos com as drogas. Sorrimos e contamos uma mentirinha logo em seguida. Abraçamos, traímos. Estendemos a mão, mas não damos o braço a torcer. Não gostamos do aquecimento global, mas jogamos lixo no chão. Colocamos o dedo na ferida e somos masoquistas. Loucos? Não de todo. Apenas transtornos que variam do maníaco ao depressivo.
No fundo, no fundo, a humanidade é bipolar. Hora de ver se é preciso uma terapia.

*A ser publicado na Gazeta Metropolitana, de Hidrolândia.

Asas

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Eu preciso de asas. Um par qualquer que me leve a visitar novos lugares. Sentindo o vento, o sol, o barulho das folhas de outono do parque. Asas que me apresentem novos céus, diferentes formatos de nuvens. Que vez ou outra me carreguem por tempestades ou mesmo àquelas chuvinhas do início da primavera, que dão brilho e altivez para a mais pequenininha das flores.
Eu preciso de asas que me escondam quando eu tiver medo, mas que também me deem forças para encarar o voo rasante. Eu preciso de asas para bisbilhotar por entre flores. Planar por entre copas, flutuar no azul, despreocupado. Sentir o cheirinho do carrinho de pipoca, do café torrado, do bolo de fubá da vizinha.
Preciso de asas que transponham montanhas, cruzem por sobre rios, voem oceanos e se aconcheguem em um ninho qualquer. Preciso voar com o vento, contra ele, por ele. Voar. Saber, ou não, por onde seguir. Visitar o verde e o vermelho. O sabor doce e, também, o amargo dos frutos.
Preciso delas e não vivo sem elas. Minhas asas, que me levaram a tantos lugares. Que me fizeram conhecer tantas outras aves: maritacas, pintassilgos, andorinhas e beija-flores. Não faltaram gaviões e, por vezes, sabiás-laranjeira. O mundo é muito mais colorido segundo seus pares de asas.
E eu preciso delas. Sem amarras, sem podas, sem gaiolas. Passarinho, eu. Livre. Batendo asas. E feliz.