Balança


Refletiu demoradamente sobre os últimos acontecimentos e chegou a uma conclusão: todas as vezes, TODAS, eram de sua boca as palavras de término. Inventava mil motivos, pregava dúvidas e inseguranças. Mas com qual finalidade?

Não se amarrava nunca por mais de certo tempo. E chegou a hora de partir, segundo seu cronograma ilusório. Não havia, pois, um caminho diferente a seguir? Precisava sempre machucar alguém ao forjar esse mal-estar, essa implicância com certas atitudes. Se a balança comandava sua cabeça e sempre pesava os prós e os ante-prós, por que os sorrisos, os afagos e os tempos bem aproveitados no ócio compartilhado se esvaíam na sua mente?

Passou a querer muito voltar na sua psicóloga. Mas já sabia muito bem o que ela iria lhe falar: Você precisa decidir o que quer da vida. E isso vale, também, diante do desequilíbrio dos seus pratos, libriano.

Anúncios

Visão

Por que fitavam tão copiosamente aqueles olhos? Por quê? Se da profundidade e do brilho que exprimiam, por que seria essa a tragédia de seu presente? Eram olhos que traziam insegurança longe dos seus, mas que bradavam de ternura e alegria ao se juntarem aos que lhe correspondiam.

E se correspondiam, por que se fecharam? Qual a razão de não piscarem? De mesmo que olhassem para o lado, de rabo de olho que seja, por qual motivo não voltaram carinhosamente a contemplar os cílios, as pálpebras ou mesmo as olheiras que sustentavam seu sono logo pela manhã?

Eram olhares, agora de interrogação. E da última vez que esteve com eles estavam atrás de óculos escuros.

Pareciam tristes, afinal. Mas, dessa vez, não os viu.

Separação

Gastou alguns de seus ociosos minutos a contemplar os momentos vividos. Nas fotos jaziam lembranças de um passado muito feliz que o fez refletir. E chorar.

Lembrou por alguns instantes que os sorrisos eram verdadeiros, que havia ali o sentimento que cogitou perder algum dia. Não, não o havia perdido. Estava apenas preso embaixo de alguns escombros que entulhou no canto de sua memória. Aliás, tentou por tantas vezes se livrar do passado que este, mais recente, era agora o abrigo para aquilo que sonhava ser seu bem querer. E não cansava de pensar naquilo.

Lembrou de como foi engraçada e mesmo ocasional essa aproximação. Por que da separação? O “não sei” era a resposta mais insalubre que amargava no gosto de suas lágrimas. E mesmo assim continuava sem respostas.

A passagem

 Não conseguiu acreditar de forma alguma no que tinha acabado de ler. Era impossível. Não… percebeu que era possível sim. A janelinha do MSN piscava incansavelmente, mas seu cérebro não raciocinava direito. Ficou em choque, congelado no tempo. Seu coração palpitava e as mãos tremiam como se fosse a primeira vez que fazia algo muito importante. E era. Decepcionava-se naquele instante de um modo como achou que jamais havia sentido. Além do mais, se torturava em querer saber detalhe por detalhe: as intensidades, as carícias e toda a luxúria derramada em suas costas. Cessou a sessão.

Offline, correu a encerrar o árduo trabalho sem refletir naquilo que estava fazendo. Se gostava tanto assim, por que razão não poderiam ser felizes juntos? Mas eram dúvidas e negação. E na espera do ônibus, cada palavra, cada cena que não presenciara martelava diante de seus olhos.

Enxergava-os, juntos: o amigo traidor e o amor que também lhe pregara uma peça. Que inimiga traiçoeira era sua imaginação. Os minutos passavam escassos, parecendo que seu martírio deveria durar para sempre. Finalmente chegou o ônibus.

Deixou-o passar. Assim como perdeu, naqueles mesmos dias, uma outra oportunidade de ter feito diferente.



A volta

Os besourinhos de fogo eram sua praga. Ceifavam sua energia, consumiam seu calor. Não que fossem de todo mal para seus domínios. Zumbiam com toda harmonia de uma serenata.

Eram, também, portadores de novas sementes, mas ainda assim não eram esperados. Traziam ventos de mudança no farfalhar de suas asas pequeninas. E na cadência simples, chacoalhavam parte de seu coração.

Que fariam agora se aportassem novamente neste terreno tão peculiar? Se viessem a plantar poderiam fazer brotar aquilo de bonito que já nascera por ali?

Queira bem que não venham a ser como pragas. O que colocaram uma vez ,ali, não vingou de primeira. Poderia, simplesmente, cuidar de seu jardim e o resto que, por seu trabalho, se virassem. Por ora, pelo menos, o terreno parece estar preparado.